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Meio Ambiente

Por queimadas, Xingu tem ar 53 vezes pior do que recomendado pela OMS

A aldeia Afukuri, no Território Indígena do Xingu, sudoeste da Amazônia, registrou uma qualidade do ar 53 vezes pior do que o indicado como aceitável pela OMS (Organização Mundial da Saúde) na segunda quinzena de setembro deste ano. O povo Kuikuro ficou exposto 17 horas por dia à concentração de 795 microgramas de material particulado de fumaça de queimadas e poluentes, por cada metro cúbico de ar. A recomendação internacional estabelece esse limite até 15 µg/m³ para não prejudicar a saúde.

“Identificar que a qualidade do ar não está aceitável em uma capital é uma coisa, agora, outra coisa é constatar essa realidade no meio de uma aldeia indígena, onde as pessoas deveriam estar respirando um ar de qualidade excelente”, comenta Filipe Arruda, pesquisador no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) que está trabalhando com a instalação de sensores de qualidade do ar.

Em parceria com o Woodwell Climate Research Center, o IPAM irá instalar, até o final do ano, 50 sensores de qualidade do ar na Amazônia e nas regiões que se conectam ao bioma pelo ar: os corredores e as correntes aéreas que ligam a floresta, por exemplo, ao Pantanal. O objetivo é medir a poluição do ar e estimar o impacto da fumaça de queimadas e de poluentes na saúde da população brasileira, com atenção às pessoas que trabalham diretamente com o fogo, como as e os brigadistas indígenas.

Um dos primeiros sensores da pesquisa foi fixado na aldeia Afukuri, com apoio do PrevFogo. A COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) é parceira na lógica de instalação de sensores em outras terras indígenas, e a Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari) também irá instalar sensores no território. Também terão sensores a capital mato-grossense Cuiabá e a Chapada dos Guimarães, e a Terra Indígena Kadiwéu, em Mato Grosso do Sul.

No tracejado em vermelho, a qualidade do ar recomendada pela OMS; nos pontos verdes, a concentração de fumaça e poluentes no Xingu, e na curva verde, a média da qualidade do ar na região (Fonte: IPAM/Woodwell)

Como as regiões são geograficamente afastadas uma da outra, a logística de envio é complexa. Foi preciso montar estratégias para que os sensores chegassem até os seus destinos no coração da Amazônia, etapa que contou com colaboração em rede das instituições envolvidas e de organizações da COIAB.

“A ideia é validar os dados com as pessoas que estão trabalhando no chão, na prevenção e no combate aos incêndios, e usá-los como base para avaliar dados de satélite que já tentam mapear a extensão desse material particulado [a fumaça e os poluentes], mas que não foram ainda muito testados e comparados com a realidade em campo”, explica Marcia Macedo, pesquisadora no Woodwell Climate Research Center e coordenadora do projeto.

Com os dados consolidados daqui a um ano, pesquisadores irão trabalhar em três frentes para: incentivar a melhoria de políticas de controle e combate a incêndios ambientais; apoiar o investimento na segurança de profissionais de brigadas; e até mesmo fortalecer o SUS (Sistema Único de Saúde), indicando possíveis custos adicionais e cargas ocasionadas por doenças respiratórias ligadas à qualidade do ar

“Brigadistas já têm uma condição de trabalho não favorável pela insalubridade, é um trabalho de risco em que se respira um ar quase tóxico no período do fogo. Esses dados serão como a cereja do bolo para construir uma argumentação da importância desses e dessas profissionais, do conhecimento tradicional associado às tecnologias, justificando, com informações concretas, que essas pessoas precisam ter maior qualidade e maior segurança no trabalho, além de seus direitos e seus territórios garantidos”, acrescenta Martha Fellows, coordenadora do Núcleo Indígena no IPAM.

É possível acompanhar em tempo real as medições de qualidade do ar nos sensores instalados pelo site PurpleAir, que também exibe sensores monitorados por demais projetos de pesquisa no país e no mundo. “Destacamos a importância global de estudos como esse, pois quanto mais pontos distribuídos tivermos, melhores as análises”, destaca Leonardo Maracahipes-Santos, pesquisador no IPAM que integra o projeto. A iniciativa prevê uma conexão panamazônica, que já conta com dois sensores instalados na Colômbia.

Fonte: Bibiana Alcântara Garrido – IPAM Amazônia.

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